Hipocrisia e ganância não rimam com integridade

Hipocrisia e ganância não rimam com integridade

Congelei?
Não, não, não! Seria impossível derreter com o bafo da falsidade.
Fiquei atónita.
Estátua de boca escancarada.
A saliva ficou enrugada pela tristeza que bombardeava aquele momento.

Amizade. O que é?
Não é uma especiaria?
Pensava que temperava a lealdade.
Pensava que intensificava ações de sensatez!

Este foi o dia do requerimento assinado com uma confiança inabalável.
Tinha chegado o momento de respirar outros ares.
Há muito que deambulava pelo meu projeto.
Não era um projeto financeiro ou empresarial.

Era um projeto missão de alma.

Eu trabalhava na fábrica dos sabonetes.
Tinha dois patrões.
Tinha dois amigos.
Dizia e jurava a pés juntos.
Eu!
Eu dizia e jurava…dois amigos!
Davam-me palavras de encorajamento. Palmadinhas nas costas saudando as minhas ideias e ideais.
Pedi férias prolongadas para investir no caminho que ainda hoje me faz suspirar!
Acreditava no deferimento abonatório.
Acreditava, piamente, que só havia uma resposta possível – Sim, vai!
Nem me passava pela cabeça outra coisa…

Enganei-me!
Não!
Ao contrário de quem nós sabemos, não lavaram as mãos!
Não!
Encardidas…
Sabonetes?
Aromáticos ou problemáticos?
Amantes da Natureza ou da avareza?
Embalados com suavidade ou iniquidade?
Para peles egocêntricas ou…?

– Não, não vais. Sem ti não há pauta para o “vira dos euros”!
Atónita!
Estátua de boca escancarada!

Com tanta glicerina, o chão da fábrica…era…escorregadio!
Caí na descrença.
Eles caíram…será que caíram?
Permaneceram, talvez. De pé?

Recordo os abraços!
Abraços!
Abraços que não abraçavam o abraço, de quem abraçava com um abraço…
…em laço…
…com melaço…
…a entregar um pedaço de mim!…

Instantaneamente, percebi, com uma clareza quase cruel…
O Mundo andava (ou anda?) afastado da sua própria humanidade.

Fui até ao horizonte e espreitei de lá para cá. Apesar de pitosga, vi muita coisa:
Relações desfeitas ao primeiro sopro de poder.
Vínculos rasgados quando o dinheiro entra no elenco.
A franqueza com o avesso da aparência.
Não entendo bem…não vejo bem…

Quando o medo de perder governa?
O humano desaparece.
Quando a ganância enfeita o centro da mesa?
Nada de puro sobrevive.
Quando se bebe o medo da pobreza ensopada de soberba…
O lucro entra, o vínculo da amizade verdadeira…sai…
…abandona a sala.
É a matemática do ego – sempre uma operação de subtração.
Reina o vício disfarçado de mérito.

Integridade? Não?
O oco instala-se com uma rapidez louca…tudo colado por fora, nada sustentado por dentro.
A hipocrisia é moeda fácil.
O discurso é polido.
O sorriso é estratégico.
O coração fica sem eira nem beira.

Sou mesmo pitosga?
Pitosga com cicatrizes! Sem eira nem beira!
Apregoam:
A vida é um palco!
Até pode ser, mas não é o mesmo que tenho pisado.

No teatro existe uma regra antiga:

A cena só respira quando todos se tornam um só.
Nenhum ator avança sozinho.
Se alguém tenta brilhar à força, a história desfaz-se.
Se há hipocrisia o público sente.
Se falta honestidade, a luz expõe.
Cada gesto é um pacto silencioso de humanidade.
Cada gesto é um pacto coletivo de integridade.

Eu cuido da tua entrada, tu amparas a minha fala.
Todos dependem de todos.
Todos têm consciência do outro.
Todos sabem que o “eu” só acontece se existir “nós”.

É assim que a verdade sustenta o espetáculo até ao fim.
É assim que a obra existe.
É assim que temos palmas.

O que eu vivi não tem cabimento neste palco.
O que eu vivi não tem cabimento no cenário da integridade.
O que eu vivi não tem cabimento no roupeiro da humanidade.
Integridade…a rima secreta da humanidade.

Amigos!
Amigos?
Por egoísmo.
Por medo.

Por interesse, viraram costas à minha verdade que gritava e acreditava no socorro.

Podem sugerir!
Pega no papel dos teus patrões.
Entra nas personagens.
Ok.
Sinto que se tivesse escolhido a vontade imoderada de ganhar mais, é porque andava esquecida ou baralhada!
Será que o medo teria corrompido a minha decisão?
Será que a hipocrisia seria a minha estratégia de sobrevivência?
Se assim fosse, qual o vosso diagnóstico?
Sintomas de desconexão profunda?
Concordo!

Reconheço…
Era uma amizade parecida com o chão da fábrica…
Escorregadia.
Sim!
Como qualquer conexão quando o poder económico é fantoche com vida.

Amizade?
Um luxo moral?
Haverá alguma riqueza que compense a perda da própria alma?
É preciso coragem para perder, sem perder a alma.

A ganância transforma…pessoa em máscara…e a máscara quando cai, revela vazio.
Prefiro continuar sem companheiros que não têm coluna vertebral.
Prefiro seguir descalça e calcar pedras…
O nascer do sol vem amanhã.
O bando de pássaros anuncia que tudo vai ficar bem!

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11 Comments

  1. Maria Cristina Rosmaninho

    PARABÉNS 👋👋👋👋
    FABULOSO ❤️
    BEIJINHOS 😘

  2. Elisabete Leitão

    UAUUuuu 💥👏👏💐
    AMEI ❤️ o teu texto, minha querida amiga. Identifiquei -me de uma forma tão rica e tão acertiva. Parabéns Luísa 💞 beijinhos
    Bety (para Amigos) ou 😉 Elizä Lêite

    • Luísa Rosmaninho

      Minha querida, muito OBRIGADA ❤️💫
      SAUDADES.

      ABRAÇO❤️TE

    • Graça Mendes Gonçalves

      Muitos aplausos!!!👏👏👏👏👏👏
      Texto extraordinário, intenso..
      Descritivo de um situação surreal, do Além…só pode!!!

      Força Amiga!!
      Em frente é o caminho!!

      • Luísa Rosmaninho

        Amiga minha com A grande. A de ALMA PURA!

        OBRIGADA por ser Assim e estar junto de mim!

        ❤️💫

        • Sónia Figo

          Infelizmente, a estória não surpreende, repete-se… Adorei ❤️

  3. António

    A dor de perder um amigo é profunda, mas há uma camada extra de sordidez quando percebemos que, na realidade, essa amizade nunca foi verdadeira. É como viver durante dias, meses anos com os óculos embaciados, e quando realmente paramos para os limpar, reparamos que não está ninguém na sala, estivemos sempre sozinhos a ecoar no vácuo

    Gostei de te ler

    🤗

    • Luísa Rosmaninho

      Obrigada, AMIGO!
      Abraço as tuas palavras tão certeiras e sensíveis!
      😘

  4. António

    A dor de perder um amigo é profunda, mas há uma camada extra de sordidez quando percebemos que, na realidade, essa amizade nunca foi verdadeira. É como viver durante dias, meses anos com os óculos embaciados, e quando realmente paramos para os limpar, reparamos que não está ninguém na sala, estivemos sempre sozinhos a ecoar no vácuo

    Gostei de te ler

    Abraço

  5. Teresa Ferreira

    O caminho é teu
    Para tu o percorreres
    As tuas decisões são o que de melhor faz ao teu horizonte
    Podes seguir descalça,
    O fim traz coisas boas,
    Conforta
    Paz

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